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Lições do Vento


 

Lições do vento – Uma Metáfora da Vida

Francisco de ASSIS de Góis

Se tem uma coisa que tanto poeta quanto velejador gosta de procurar entender, essa coisa é o vento.

Podemos concordar totalmente com ele e seguir exatamente o seu caminho.

Porem é o ajuste que se dá às velas e não a direção do vento, que determina o destino do bom navegante. Diz um ditado, que nem toda unanimidade é inteligente, e neste caso não é diferente. Seguir continuamente a exata direção do vento pode não ser uma condição muito confortável. Somos levados de acordo com seu desejo e capricho, e muitas vezes jogados de um lado para outro dependendo do seu humor. Isso é o que os velejadores chamam de popa rasa. O comumente chamado vento em popa.

Normalmente a maioria dos ventos são tolerantes e aceitam dialogar, acatando sem maiores problemas os nossos ajustes. Podemos argumentar e fazer caminhos ligeiramente diferentes do dele, tanto para um lado quanto para o outro. Esse estado de pouca divergência é, normalmente, a maneira mais pacifica e confortável de convivência com o vento e os velejadores a chamam de vento pela alheta.

Podemos argumentar um pouco mais, não concordar com a sua trajetória e tentar cruzar o seu caminho. Como eu disse antes, na sua maioria os ventos são gentis, tolerantes e não vão impedir que você passe através dele. Essa é normalmente a maneira mais rápida de seguir. Em concordância mútua, você faz seu caminho e o vento faz o dele, sem desavenças. Isso é o que os velejadores chamam de vento pelo través.

Poderemos até ir além, discordando do seu destino e propósitos. Só que aí vamos medir forças com ele, forçar um caminho quase contrário ao seu. Essa é uma maneira muito desgastante de seguir. Às vezes progredimos, às vezes recuamos. Na maioria das vezes o vento passa ou passamos através dele. Atingir ou não o nosso destino vai depender da força de cada um. Não é uma maneira sensata de percorrermos longos caminhos. Isso é o que os velejadores chamam de orça forçada, ou navegar a bolina.

O que não conseguiremos fazer é discordar totalmente do vento e velejar exatamente contra o seu destino. O melhor a fazer nestas condições em que outro rumo senão o contrário do vento nos interessa, e caso seja possível, é procurar um lugar adequado e lançar âncora. Uma boa ancora. Isso todo navegador precisa ter: uma boa ancora e paciência; saber esperar o momento certo para ir em frente.

Outra coisa que não se consegue fazer é correr atrás do vento. Uma vez passado, está perdido. Não se consegue mais alcançá-lo. Se o deixamos passar, teremos que esperar outro. Mas muito cuidado! Nem todos os ventos são amigáveis e gentis. Alguns não aceitam acordos, são tempestuosos e destruidores. Fuja deles. Encontre um lugar seguro e se abrigue, pois, mesmo sobrevivendo a eles você sempre pagará um alto preço por enfrentá-los. A esses ventos os poetas e navegadores chamam de tormentas. Entretanto, nem sempre conseguimos evitá-los e acabamos pagando o preço, recebendo em troca alguma experiência e muitas cicatrizes.

No entanto, existe uma condição que talvez seja a pior e mais traiçoeira de todas: a falta total de ventos. A isso os velejadores chamam de calmaria. Nela nada acontece, é uma pasmaceira total. Nesta condição o navegante se torna sonolento, displicente. O barco fica à deriva, ao sabor de preguiçosas ondas. E quando menos se espera, antes que se dê conta, essas ondas o arremessam contra o rochedo...

O autor é Design Engineer, Velejador, Capitão Amador e diretor da https://www.daggermarine.com.br/

 

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Crônica