Selecione uma localidade

Vela Mestra


Os sonhos, em geral, vêm de través. É por isso que aceitar a estranha ideia que um barco ande para a frente empurrado por um vento que pode vir de qualquer lado equivale a compartilhar daquele sonho de realização que toca a humanidade há quase tanto tempo quanto sopra o próprio vento. Cinematográfica, a visão de uma vela mestra, grande, branca e gorda de vento é fantasia suficiente para ninguém reclamar.

Sol, vento, água... tudo tão intenso, tão presente a ponto do balanço ocasional ou da inclinação quase permanente, típicos de um veleiro mas insólitos para um mundo de gravatas e esquadros, não conseguirem destruir a fantasia de velejar o sonho sempre além da mente. 

Doriana faz mais do que resistir ao sol. Ela o encara, nutre-se dele. Fome, lanche, lancha... até que cruzamos uma, numa manobra que torna difícil para os habitantes de uma embarcação movida a pressa resistir ao risível de um veleiro com nome de margarina. Doriana não se derrete à risada fácil dos lancheiros. E é assim, fácil, que ela desliza com a autoridade de quem o faz por escolha, emprestando do vento só a força, e fazendo a própria direção.

Um vaso sanitário nos lembra que, especialmente em veleiros pequenos, não há lirismo que resista à vontade de fazer xixi. Professoral, um marinheiro de várias viagens explica a estes, de primeira, que não é um vaso químico (um pinico tecnológico), mas um vaso hidráulico. Ah... isso muda tudo. Um vaso hidráulico, uma tralha que entrega ao mar o produto da fantasia. Olho para o vaso, desconfiado, mas logo entendo que o mar, como os sonhos, é generoso. Não será ele a destruir uma fantasia bem nutrida rejeitando o resultado de uma prosaica cerveja.

Há quem diga é que preciso ter a cabeça cheia de vento para achar graça numa vela idem. Essa impressão vai embora quando a cabeça em questão é a sua e, principalmente, quando entre ela e o nada há um veleiro, um sonho e um desejo de paz, coisas que não precisam respeitar qualquer ordem entre si mas que compartilham da mesma intensidade.

E tem sido assim, suave, virtualmente perfeito, como é peculiar aos sonhos e outras fantasias. Se no próximo verão, quando Doriana chegar de verdade, vai ser bom desse tanto, realmente não sei. Por enquanto, felicidade é saber que aquela grande vela branca, apesar de ser mestra e ceder somente ao vento, no final serve mesmo ao sonhador.

Crônica